Frans Krajcberg deixa importante obra que funde arte e militância

O grito da natureza foi ainda mais alto nesta quarta-feira (15). É que ela perdeu um dos seus maiores defensores: o artista plástico, pintor, escultor e fotógrafo Frans Krajcberg, que morreu aos 96 anos, no Rio de Janeiro, com um quadro de saúde frágil por conta de uma infecção generalizada.

O ativista de origem polonesa ficou conhecido internacionalmente por sua obra que usa troncos e raízes de árvores calcinadas. Sobrevivente da segunda guerra, se defrontou com a face  mais obscura do ser humano: a violência. Sua família, de origem judia, foi morta em campos de extermínio nazistas. Desde que chegou ao Brasil, em 1948, lutava contra a destruição de florestas.

O corpo de Krajcberg será cremado nesta quinta-feira (16) no Rio e suas cinzas serão levadas até Nova Viçosa, no Sul da Bahia. Ele morou em São Paulo, Rio  e, na década de 60, se dividiu entre a capital carioca  e Paris. Mas foi em Nova Viçosa que encontrou seu refúgio para a vida.

No Sítio Natura, onde morou por 45 anos, mantinha seu ateliê. Apesar de reclamar da indiferença local em relação ao seu trabalho, era encantado pela cidade. “Eu pensei: ‘Meu Deus, quanta riqueza que tem, movimento que tem, que a arte ignora. Eu fico aqui”, contou no documentário O Grito da Natureza.

 

Legado
Baiano desde 2008 – quando recebeu o título de Cidadão Baiano – Krajcberg plantou mais de 10 mil mudas de espécies nativas e construiu um museu particular, onde guardava seu acervo. “Ele acreditava que aqui poderíamos apresentar um novo modelo de sociedade, pelas diferenças culturais que temos na nossa matriz”, relata o diretor do Museu de Arte da Bahia (MAB), Pedro Arcanjo. Para ele, a obra de Krajcberg é símbolo da capacidade que a natureza tem de se regenerar e renascer:  “Seu grande legado é que precisamos  interromper esse ciclo de destruição”.

 Mesmo com problemas de saúde, o artista  viajava para fotografar as áreas atingidas por incêndios criminosos. Denunciou as queimadas no Paraná, a exploração dos minérios em Minas Gerais e o desmatamento na Amazônia. “Vocês não sabem o que está acontecendo na Amazônia; é um massacre, precisamos interromper esse ciclo”, disse.

Sua arte e militância de em prol da natureza emocionou muita gente. “Ele é uma lenda. Um dos mais importantes artistas do mundo. Um exemplo de brasileiro, de baiano comprometido  com o futuro. A arte dele é destinada à transformação. Traz sempre a questão: ‘Vocês vão deixar isso acontecer?’. Sua arte é um grito ao mundo. O livro Queimadas, por exemplo, é fortíssimo. Fui agraciado com sua presença e isso me fazia crer que valia a pena estar vivo. Sua causa nunca acabará”, diz o filósofo José Antônio Saja, que trabalhou na edição dos livros Queimadas e Natureza e fez a direção de arte da exposição em comemoração aos 90 anos do artista, no Palacete das Artes, em 2011.

 Segundo Saja, muita gente dizia que Krajcberg era uma pessoa difícil. “Comigo foi o contrário. Ele tinha um rigor, uma potência, mas era delicado. Era um homem indignado com todo tipo de brutalidade. Se isolava para fugir do ser humano e das brutalidades que cometemos. Essa foi a forma de protesto dele. Encontrou refúgio na beleza da natureza”, complementa Saja, que é crítico de arte.

Para o diretor do Palacete das Artes, Murilo Ribeiro, as obras de Krajcberg revelam o verdadeiro tamanho do homem, a sua insignificância diante da grandiosidade do nosso planeta, denunciando a irresponsabilidade e o imediatismo quando se trata de cuidar da Terra.

“Tenho profunda admiração e carinho por ele. Era um amigo querido, com uma obra fantástica, que tinha  uma dedicação imensa. Ele era uma figura engraçada. Introspectivo, mas sincero, firme e  expressava afetos”, conta Ribeiro, que é artista plástico e fez a direção de arte da exposição de 90 anos do artista. “Ele era um realizador que tinha um apego à vida. Gostava de levantar para ver o sol nascer e o pôr do sol. A data que mais gostava era seu aniversário. Lembro dele dançando com Christiane Torloni, que era apaixonada por ele”.

O governador Rui Costa decretou um dia de luto oficial. Em nota, disse que a morte do artista significa uma grande perda para a Bahia e para o mundo. “Esculpiu, impressionou e sensibilizou a todos. Tudo o que ele construiu continua preservado para esta e para novas gerações”, comentou. O prefeito ACM Neto ressaltou que o artista contribuiu para toda a humanidade. “Escolheu a Bahia para viver e construir uma obra que serviu e serve de lição para todos que amam a natureza”.

Fonte: Correio 24 Horas

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